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Actividades 

O Modernismo 

" Dizer tudo de todas as maneiras"

  • Cada grupo (par) analisa, segundo os tópicos de análise, os poemas distribuídos e prepara uma apresentação em powerpoint para mostrar aos colegas.

Alberto Caeiro Ricardo Reis Álvaro de Campos Mensagem Pessoa Ortónimo

Grupo 1

 Eu nunca guardei rebanhos

Sou um guardador de rebanhos

 

Grupo2

Há metafísica bastante em não pensar em nada

O meu olhar é nítido como um girassol

Grupo 3

Vem sentar-te Lídia..

Vivem em nós inúmeros

Não consentem os deuses mais que a vida

 

 

 

 

Grupo 4

Dobrada à moda do Porto

Dactilografia

 

Grupo 5

Opiário

Grupo 6

Ulisses

D. Dinis

D. Sebastião- Rei de Portugal

Grupo 7

O Infante

O Mar Português

O Mostrengo

Grupo 8

O Quinto Império

O Nevoeiro

Grupo 9

Autopsicografia

Isto

Leve, breve, suave

 

Grupo 10

Não sei quantas almas tenho

Ela canta pobre ceifeira


 
 Alberto Caeiro

 Eu Nunca Guardei Rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos, 
Mas é como se os guardasse. 
Minha alma é como um pastor, 
Conhece o vento e o sol 
E anda pela mão das Estações  
A seguir e a olhar. 
Toda a paz da Natureza sem gente  
Vem sentar-se a meu lado. 
Mas eu fico triste como um pôr de sol  
Para a nossa imaginação, 
Quando esfria no fundo da planície  
E se sente a noite entrada 
Como uma borboleta pela janela. 

Mas a minha tristeza é sossego 
Porque é natural e justa 
E é o que deve estar na alma 
Quando já pensa que existe 
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso. 

Como um ruído de chocalhos 
Para além da curva da estrada, 
Os meus pensamentos são contentes. 
Só tenho pena de saber que eles são contentes, 
Porque, se o não soubesse, 
Em vez de serem contentes e tristes,  
Seriam alegres e contentes. 

Pensar incomoda como andar à chuva 
Quando o vento cresce e parece que chove mais. 

Não tenho ambições nem desejos  
Ser poeta não é uma ambição minha  
É a minha maneira de estar sozinho. 

E se desejo às vezes 
Por imaginar, ser cordeirinho  
(Ou ser o rebanho todo 
Para andar espalhado por toda a encosta 
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo), 

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, 
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz 
E corre um silêncio pela erva fora. 

Quando me sento a escrever versos 
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, 
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, 
Sinto um cajado nas mãos 
E vejo um recorte de mim 
No cimo dum outeiro, 
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, 
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, 
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz 
E quer fingir que compreende. 

Saúdo todos os que me lerem, 
Tirando-lhes o chapéu largo 
Quando me vêem à minha porta 
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. 
Saúdo-os e desejo-lhes sol, 
E chuva, quando a chuva é precisa, 
E que as suas casas tenham 
Ao pé duma janela aberta 
Uma cadeira predileta 
Onde se sentem, lendo os meus versos. 
E ao lerem os meus versos pensem 
Que sou qualquer cousa natural Por exemplo, a árvore antiga 
À sombra da qual quando crianças 
Se sentavam com um baque, cansados de brincar, 
E limpavam o suor da testa quente 
Com a manga do bibe riscado.

Tópicos de análise

Elabora um comentário ao poema, abordando as seguintes questões:

- identificação com a Natureza e integração no seu ritmo;

-procura da tranquilidade, da paz;

-procura da abolição do vício de pensar;

-vida comandada pelas impressões visuais;

- importância do real objectivo;

lirismo espontâneo, ingénuo, conseguido através da simplicidade da linguagem e da liberdade do verso.

 

 Sou um Guardador de Rebanhos 

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

 

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

     

Por isso quando num dia de calor 
Me sinto triste de gozá-lo tanto.  
E me deito ao comprido na erva, 
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, 
Sei a verdade e sou feliz.

Tópicos de análise

Analisa o poema tendo em conta:

_identificação ver/sentir

-o contacto com o real objectivo/o sensacionismo

- real objectivo vs realidade subjectiva

-recursos estilísticos e sua expressividade

 

O meu olhar é nítido como um girassol.

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Tópicos de análise

-Tema

- indicar algumas características temáticas da poesia de Caeiro

-a comparação é um dos recursos presentes, dar dois exemplos e explicar

- filosofia de vida subjacente neste poema

- importância da sensação visual no poema

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo! 
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério. 
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas, 
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

Constituição íntima das coisas "...
"Sentido íntimo do Universo" ...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, 
e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina).

Mas se Deus é as flores e as árvores 
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Tópicos de análise

-posição do eu poético face ao real e à natureza

- expressão no poema da posição contrária à adaptada pelo eu poético

- visão da realidade e formas de conhecimento da mesma

- conceito de felicidade e sua definição

- natureza

- características da linguagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

topo

Ricardo Reis

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. 

            (Enlacemos as mãos.)

 

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

         Mais longe que os deuses.

 

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
       E sem desassossegos grandes.

 

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

       E sempre iria ter ao mar.

 

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
       Ouvindo correr o rio e vendo-o.

 

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
       Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
        Pagã triste e com flores no regaço.

Tópicos de análise

  • Considera os seguintes aspectos:

-sentimento da fugacidade da vida e da inevitabilidade da morte

  • normas de comportamento enunciadas;

- fruir o momento presente, contendo as emoções;

-evitar o sofrimento;

- a serenidade e a indiferença perante a morte;

Vivem em nós inúmeros

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam

A quem me sei: eu screvo.

 

 

Não consentem os deuses mais que a vida.

Não consentem os deuses mais que a vida.

Tudo pois refusemos, que nos alce

A irrespiráveis píncaros,

Perenes sem ter flores.

Só de aceitar tenhamos a ciência,

E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,

Nem se engelha connosco

O mesmo amor, duremos,

Como vidros, às luzes transparentes

E deixando escorrer a chuva triste,

Só mornos ao sol quente,

E reflectindo um pouco.

Tópicos de análise

-tema

-simbolismo de píncaros, flores, vidro

-importância da forma verbal "duremos"

-recursos expressivos

- marcas de classicismos/horacianismo

-carácter moralista

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Álvaro de Campos

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comí, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei multo bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Tópicos de análise

-tema

-estrutura lógica

-marcas de texto narrativo

-objectividade/subjectividade

-oposição passado/presente

-a infância, idade de ouro

- as carências afectivas

-expressividade dos signos "missionário" e "frio"

Opiário
 

                                             Ao Senhor Mário de Sá-Carne

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
 São dias só de febre na cabeça
 E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

 É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos, Que passo entre visões de cadafalsos
 Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
 Duma vida-interior de renda e laca. Tenho a impressão de ter em casa a faca
 Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
 E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina  Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
 Ergue-se a lua como a minha Sina.

 Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
 Não faço mais que ver o navio ir
  Pelo canal de Suez a conduzir
 A minha vida, cânfora na aurora.

 Perdi os dias que já aproveitara.
 Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
 Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

 Gostava de ter poemas e novelas
   Publicados por Plon e no Mercure,
  Mas é impossível que esta vida dure.
   Se nesta viagem nem houve procelas!

  A vida a bordo é uma coisa triste,
  Embora a gente se divirta às vezes.
  Falo com alemães, suecos e ingleses
  E a minha mágoa de viver persiste.

 Eu acho que não vale a pena ter
 Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
 A terra é semelhante e pequenina
  E há só uma maneira de viver.

 Por isso eu tomo ópio. É um remédio
  Sou um convalescente do Momento.
 Moro no rés-do-chão do pensamento
  E ver passar a Vida faz-me tédio.

 Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
  Muito a leste não fosse o oeste já!
   Pra que fui visitar a Índia que há
  Se não há Índia senão a alma em mim?

 Sou desgraçado por meu morgadio.
  Os ciganos roubaram minha Sorte.
 Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

 Eu fingi que estudei engenharia.

Vivi na Escócia.  Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smokink-room com o conde -
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
 De vir a ser um poeta sonambólico.
 Eu sou monárquico mas não católico
 E gostava de ser as coisas fortes.

 Gostava de ter crenças e dinheiro,
  Ser vária gente insípida que vi.
  Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
  Num navio qualquer um passageiro.

 Não tenho personalidade alguma.
 É mais notado que eu esse criado
 De bordo que tem um belo modo alçado
 De laird escocês há dias em jejum.

 Não posso estar em parte alguma.
 A minha Pátria é onde não estou. 
 Sou doente e fraco. O comissário de bordo é velhaco.
 Viu-me co'a sueca...e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
 Só para dar que falar de mim aos mais.
 Não posso com a vida, e acho fatais
 As iras com que às vezes me debordo.

 Levo o dia a fumar, a beber coisas,
 Drogas americanas que entontecem,

 E eu já tão bêbado sem nada!  Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

 

Escrevo estas linhas.  Parece impossível
 Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

 Os ingleses são feitos pra existir.
 Não há gente como esta pra estar feita
  Com a Tranquilidade.  A gente deita
  Um vintém e sai um deles a sorrir.

 Pertenço a um género de portugueses    Que depois de estar a Índia descoberta
 Ficaram sem trabalho.  A morte é certa.
 Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
 Nem leio o livro à minha cabeceira.
  Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

 Caio no ópio por força.  Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
 Não se pode exigir.  Almas honestas
 Com horas pra dormir e pra comer.

Que um raio as parta!  E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
 Não haver um navio que me transporte
 Para onde eu nada queira que o não veja!

 Ora!  Eu cansava-me o mesmo modo.
 Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali
  Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

   Febre!  Se isto que tenho não é febre,
  Não sei como é que se tem febre e sente.
   O fato essencial é que estou doente.
  Está corrida, amigos, esta lebre.

  Veio a noite.  Tocou já a primeira
  Corneta, pra vestir para o jantar.
  Vida social por cima!  Isso!  E marchar
  Até que a gente saia pla coleira!

 Porque isto acaba mal e há-de haver
 (Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
  Deste desassossego que há em mim
  E não há forma de se resolver.

  E quem me olhar, há-de-me achar banal,
  A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
  O meu próprio monóculo me faz
  Pertencer a um tipo universal.

 Ah quanta alma viverá, que ande metida
 Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
 Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

 Um inútil.  Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
 E, ainda que co'os cotovelos rotos,
 Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
 Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
 No meu cérebro farto de cansar-se.
 A minha vida mude-a Deus ou finde-a ...

 Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
 Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
 Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!

A vida sabe-me a tabaco louro.
 Nunca fiz mais do que fumar a vida.

                           

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto!Abra as eclusas 
E basta de comédias na minh'alma!

 (No Canal de Suez, a bordo)

Tópicos de análise

- tema

-estrutura lógica

-doença da alma

- papel do ópio

-estado mórbido do poeta perante a civilização

-papel de Deus

- sentimentos do poeta

-estilo confessional, brusco, amimado e divagativo

-salientar marcas do decadentismo

 

Dactilografia

 

Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,

Firmo o projecto, aqui isolado,

Remoto até de quem eu sou.

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Que náusea da vida!

Que abjecção esta regularidade!

Que sono este ser assim!

 

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros

(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),

Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,

Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,

Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

 

Outrora.

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

 

Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;

A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,

Que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

 

Na outra não há caixões, nem mortes,

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;

Neste momento, pela náusea, vivo na outra...

 

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.

 

 Tópicos de análise

-tema

_estrutura lógica

-função do ruído das máquinas de escrever

-presente vs passado

-as duas vidas

- impossibilidade de alteração da situação do poeta

-recursos expressivos

Mensagem

Ulisses

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo--
O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Tópicos de análise

- carácter paradoxal da definição enunciada;

- a demonstração da tese enunciada;

- a particularização do mito - recursos a nível morfossintáctico;

- Portugal e os portugueses - um pais e um povo de origem mítica.

D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.


Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

Tópicos de análise

- caracterização do "cantar" - associação dinâmica entre signos dos campos semânticos da terra e da água;

- o cantar - elemento de ligação entre o presente e o futuro ( o Império);

- recursos estilísticos e sua expressividade.

 

 

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.


Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Tópicos de análise

- o sujeito de enunciação - marcas de predestinação que o elevam à categoria de herói;

- a valorização da "loucura" na concepção do herói;

- a projecção para o futuro.

 
O Quinto Império

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa-- os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

Tópicos de análise

-refere-te à apologia do sonho feita neste poema.

- explica por palavras tuas a 3ª estrofe.

- para que tempo se volta o poeta?

-como se concretizará o Quinto Império?

- Que Império é esse?

-salienta os principais recursos estilísticos presentes no poema

 

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Tópicos de análise

- sacralização ( mitificação) do homem português;

- relação passado/presente/futuro

- apelo profético ao cumprimento do destino mítico;

- recursos estilístico e sua expressividade;

- o símbolo contido no título.

O Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Tópicos de análise

- Refere o cenário em que surge o mostrengo

-realça o paralelismo entre as acções do mostrengo e as atitudes do homem do leme.

-realça a evolução descendente do mostrengo e a evolução crescente do homem do leme.

- Indica como são representados or perigos do mar e a audância dos portugueses.

-Quem representa o homem do leme?


MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Tópicos de análise

- valorização épico do sofrimento dos portugueses;

-o herói e as provas por que passa;

-o herói e a recompensa;

-o mar- espaço mítico das provas e da recompensa;

-recursos estilísticos a nível fónico, morfossintáctico e semântico.

 


 

 

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer

Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!

Tópicos de análise

- definição/identificação de Portugal no presente;

- a crise de identidade de Portugal;

- o poeta-lugar da revelação;

- exortação profética para a mudança.

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Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 

Tópicos de análise

-explicar os versos 3 e 4 da 1ª estrofe

-na 2ª estrofe , refere-se a "dor lida" e as "duas que ele teve". A que "dor" alude, em cada caso o eu poético?

- enunciar a teoria do fingimento poético que a 3ª quadra sugere.

Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão !
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando !

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso ! Ó céu !
Ó campo ! Ó canção !

A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve !
Entrai por mim dentro ! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai !

 

Tópicos de análise

- divide o poema em partes lógicas, justifica a sua divisão

- caracteriza a ceifeira de forma objectiva

- indica os elementos de subjectividade que a poeta introduz na caracterização da ceifeira

- O canto da ceifeira é perfeito. Destaca os elementos que traduzem essa perfeição.

-indica o verso que melhor caracteriza o sujeito poético.

-Aponta as razões para a impossibilidade do pedido feito pelo sujeito poético.

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Tópicos de análise

- recusa da poesia como expressão imediata das emoções

- de que forma este poema retoma o tema do poema "autopsicografia"

-transfiguração da emoção pela razão- intelectualização do sentir

- a procura e a expressão em poesia de uma emoção estática

- a poesia como fingimento

-recursos estilísticos sua expressividade

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

 

Leve, breve, suave                        
Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca em nada,
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doure no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

Tópicos de análise

_ refere-te ao tema do poema

- O que provocam as sucessivas mudanças nele?

- Refere no texto os versos que remetem para:

. assiste à sua passagem

. lê as páginas das suas peregrinações interiores

.não pode prever o futuro porque muda sempre

. o passado é o tempo a esquecer

.as anotações que faz à margem do que lê não são suas.

- Explica a seguinte frase: "Fernando Pessoa é um ser perdido no labirinto de si mesmo".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tópicos de análise

 

- O verso inicial contém a ideia que mais importa. Qual?

- referir de que forma essas palavras traduzem a beleza do canto

- O eu refere-se à fugacidade do momento de encanto.Indicar o verso que melhor o traduz.

-Indicar o que quebrou o momento de encanto

. indicar oa sentimentos experimentados pelo sujeito poético na 2ª estrofe

 

 

  Glossário  

Epicuro
Filósofo grego (n. 341 – m. 271 a. C.). Defensor do atomismo e fundador do epicurismo, sistema filosófico que afirma que o objectivo máximo da vida está no prazer, entendido sobretudo como ausência de sofrimento. Assim, ao contrário do que seria de supor, a busca do prazer pressuponha no epicurismo original uma vida regrada e simples, longe das preocupações e ambições desmedidas.

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